Blogue · Alice Rigot

O fígado ou o despertar da primavera

Le foie ou le jaillissement du printemps

Read in English · Lire en français

Apelido: Fígado

Nome próprio: Vesícula Biliar

Elemento: madeira

Estação: primavera

Direção: este

Sabor: ácido

Sentido: visão

Líquido: lágrimas

Emoção: raiva

Odor: gordura queimada

Som: grito

Horário de atividade: Vesícula Biliar 23h–1h, Fígado 1h–3h

As unhas, assim como os tendões, são o espelho do fígado.

A energia do fígado é aquela que vemos desabrochar neste momento nas florestas e nas árvores dos parques. Na ponta dos ramos nus surge um pequeno rebento, primeiro como uma escama dura e escura; depois, de repente, aparece um jovem broto verde, que sai do ramo e se abre numa folha vigorosa, cheia de vida, cheia de força. A seiva, que passou todo o inverno nas raízes da árvore, dentro da terra, sobe até à ponta dos ramos e irrompe nessas pequenas folhas que só querem desabrochar. Mas é preciso força, uma energia poderosa, para fazer subir a seiva até à ponta dos ramos – e essa energia, essa vida que irrompe, é a da madeira, a mesma que temos dentro de nós, no nosso corpo: a do nosso fígado e da nossa vesícula biliar.

No Suwen, o grande tratado da medicina tradicional chinesa, está escrito:

«O fígado é o comandante dos exércitos; dele procedem a análise e a conceção dos planos.»

Nas profundezas do nosso organismo existe uma organização entre os diferentes órgãos, em que cada um tem o seu papel. Tal como num ecossistema, onde cada indivíduo tem uma função precisa e todos juntos formam um equilíbrio, um ciclo semelhante ao da natureza, também este ciclo tem de se manter em harmonia para que o ser humano conserve a saúde mental e física. Nesta organização, o coração representa o imperador, o pulmão é o seu primeiro-ministro e o fígado é o comandante dos exércitos.

O sangue é o seu exército: cabe-lhe limpar o sangue e treiná-lo. Insufla-lhe a energia necessária à circulação sanguínea, e a sua força é uma capacidade defensiva que cobre todo o organismo. O fígado recebe o sangue do coração e «purifica-o»; ao mesmo tempo, analisa-o e, depois dessa análise, decide o que fazer em função da composição do sangue. Se deteta um agente tóxico, age em conformidade – é por isso que se diz que «dele procedem a análise e a conceção dos planos».

E ainda: «A energia do fígado é, por natureza, muito premente, e a vontade que lhe corresponde é impetuosa e violenta. A vibração dos seus sopros encontra-se de forma evidente no vento e na madeira. O fígado comanda os sopros da primavera, da vida que se lança; faz brotar aquilo que até então era apenas semente.»

O fígado deve, portanto, tomar decisões que sejam boas para nós; mas, pela sua natureza impetuosa, tende para os arrebatamentos e para a raiva, o que o pode perturbar e impedir de tomar as decisões certas.

Diz um velho tratado militar: «Se o general do exército inimigo for dado à cólera, insultai-o e enfurecei-o; irado, deixará de ver com clareza e marchará sobre vós às cegas, sem plano.»

É exatamente o que acontece quando a raiva nos invade: fazemos disparates e, num segundo momento, choramos – e isso alivia-nos.

O fígado está associado à vesícula biliar: a função da vesícula biliar acompanha a do fígado, do qual está fisicamente muito próxima.

«A vesícula biliar tem a seu cargo o justo e o exato; dela procedem a determinação e a decisão.»

O fígado explora e analisa as situações; a vesícula biliar permite-lhe decidir.

Rebento de primavera

A nível fisiológico, o fígado filtra e purifica o sangue e produz a bílis, que é armazenada na vesícula biliar antes de ser enviada para o intestino delgado. Através da distribuição dos nutrientes, com a ajuda das hormonas, do ácido gástrico, da saliva e da bílis, equilibra a totalidade da energia do corpo.

A partir daquilo que o coração lhe dá – o sangue –, o fígado recolhe a qualidade física e emocional desse sangue e, com os dados que analisa e com a ajuda da vesícula biliar, toma uma decisão, decide de forma firme e clara, e aciona assim a mola que propaga o seu efeito por todo o organismo. É o impulso primordial da vida, a organização inicial.

É por isso que, na energética chinesa, não se separam o corpo, o intelecto e as emoções: como se vê, o intelecto e as emoções partem do corpo. A raiva é a expressão do fígado, e a análise das situações – seja física, como as decisões relativas à composição do sangue, seja nas decisões da vida de todos os dias – fica a cargo do fígado e da vesícula biliar, por estranho que pareça.

Mas isto é fácil de verificar por nós próprios: quem nunca sentiu que, dominado pela raiva, ficou incapaz de ver uma situação com clareza? Se agimos sob o efeito da raiva, mais tarde vamos ter com a pessoa contra quem ela se dirigiu e, no melhor dos casos, dizemos-lhe: «Peço imensa desculpa, estava com raiva, mas não pensava o que disse.» E toda a gente compreende – alguns dirão «Isso não justifica nada!», outros «Eu compreendo, não te preocupes» –, mas, seja como for, sabemos que a raiva nos impede de agir com sabedoria. Outras pessoas ficam eternamente zangadas e nunca voltam atrás…

Percebe-se então a importância de respeitar o equilíbrio das estações e dos Cinco Elementos para manter uma boa saúde física e moral.

Se a energia do fígado estiver perturbada, podem observar-se os seguintes sintomas:

(não necessariamente todos ao mesmo tempo)

– perda de vitalidade

– picos súbitos de motivação seguidos de cansaço extremo

– incómodo fácil com o barulho

– depressão na sequência de estímulos emocionais

– sensibilidade emocional elevada, tendência para levantar a voz, acessos de raiva

Os olhos perdem o brilho, tudo fica amarelo, tonturas quando se está muito tempo de pé, diminuição inexplicável da vida sexual, febres ocasionais, problemas nos testículos e/ou na próstata, dores no sacro, hemorroides, falta de apetite, náuseas, dores de cabeça.

Se a energia da vesícula biliar estiver perturbada, podem observar-se os seguintes sintomas:

Somos incapazes de tomar uma decisão, ao ponto de perder o sono; agarramo-nos ao mais pequeno pormenor; assustamo-nos com facilidade; os olhos ficam cansados e a visão turva; comemos depressa demais; ou temos prisão de ventre ou temos diarreia; perdemos flexibilidade física; temos náuseas de manhã ao acordar, tensões e dores nos ombros.

Então, como se pode apoiar concretamente o fígado e a vesícula biliar?

Se o estado energético dos nossos órgãos pode perturbar a mente e as emoções, o inverso também é verdade.

Assim: acalmar a raiva, meditar, respirar profundamente, reconsiderar os nossos atos e aceitar ver os nossos erros, refletir antes de nos zangarmos, não tomar decisões de cabeça quente – mas também não beber álcool, nem em excesso nem em pequenas doses todos os dias, fazer exercício físico e ter uma alimentação equilibrada e variada, nomeadamente rica em fibras e em ferro.

Regra geral, evitar todo o tipo de excessos: não há dietas milagrosas, precisamos de tudo, mas sem excessos. O fígado precisa de ferro para a transformação dos glóbulos vermelhos, e o ferro mais bem assimilado pelo organismo é o de origem animal – o ferro de origem vegetal é dez vezes menos bem assimilado. Por isso, quem é vegetariano ou vegano deve ter especial atenção ao seu aporte de ferro, indispensável a uma boa produção de sangue.

Trajeto dos meridianos

Trajeto dos meridianos do fígado e da vesícula biliar

Outra forma de apoiar o fígado e a vesícula biliar é alongar os meridianos. Aqui fica o alongamento básico: como se vê na fotografia, alonga tanto o meridiano do fígado como o da vesícula biliar. É o alongamento de base, mas existem muitos outros. Nunca deve ser feito à força e deve ser acompanhado de uma respiração específica – para isso, remeto para o meu artigo Do-In.

Alongamento dos meridianos do fígado e da vesícula biliar

«Com a chegada da primavera, a terra aquece. Todas as plantas começam a germinar e a dar folhas verdes, por isso a cor associada à primavera é o verde. Como a maior parte dos frutos e das árvores ainda não está madura nessa altura, o seu sabor é ácido. Este sabor ácido pode fortalecer o fígado, e o fígado pode então nutrir os tendões e os canais tendinomusculares. O elemento madeira, a que corresponde o fígado, pode produzir o elemento fogo, a que corresponde o coração; por isso se diz que os tendões produzem o coração. O fígado está ligado aos olhos através destes canais; por isso se diz que o orifício superior do fígado é o olho. (…) O fígado é responsável por manter estável o fluxo da energia, cuja natureza é o movimento e a expansão. A raiva pode ferir o fígado, mas a tristeza pode aliviar a raiva. (…) O consumo excessivo de alimentos ácidos pode tornar os tendões flácidos, mas isso pode ser neutralizado pelo sabor picante.»

SUWEN, «o grande tratado de medicina tradicional chinesa»

A floresta, pulmão e fígado do planeta

Um grande bónus:

É extremamente interessante debruçarmo-nos sobre o papel das árvores na natureza e reencontrar nele o mesmo papel do fígado. De facto:

As árvores têm um papel importante na purificação do ar: absorvem e neutralizam numerosos poluentes gasosos (ozono, dióxido de enxofre, etc.) e retêm as partículas em suspensão.

Uma árvore saudável consegue retirar mais de 7000 partículas de poluentes atmosféricos por litro de ar.

Além disso, as suas raízes absorvem também uma parte dos produtos fitofarmacêuticos usados em excesso nos terrenos cultivados (pesticidas), limitando assim a poluição dos solos, dos rios e dos lençóis freáticos; limitam também a erosão dos solos ao armazenarem a água da chuva. Para além disso, a floresta alberga 80% da biodiversidade terrestre e é o habitat de inúmeras espécies animais e vegetais.

A floresta é essencial à sobrevivência do planeta, tal como o fígado, no nosso corpo, é essencial à nossa sobrevivência.

(fonte: BENIN ENVIRONMENT AND EDUCATION SOCIETY (BEES ONG))

Retrato de Alice Rigot, terapeuta de shiatsu em Lisboa

Alice Rigot

Terapeuta de shiatsu e Seiki com mais de 30 anos de prática, em Campo de Ourique, Lisboa. Escrevo sobre medicina chinesa, Do-In e gestos simples de autocuidado no dia a dia.

Sobre mim → · Todos os artigos